Falar sobre meio ambiente e gestão responsável das empresas em um contexto global, agora chamado de ESG (environmental, social and corporate governance, em inglês), que, traduzindo para o português significa ambiental, social e governança, é uma realidade cada vez mais notável. Um dos pilares brasileiros no assunto é o CEO e fundador da consultoria Ideia Sustentável, com mais de 25 anos de atuação no mercado, Ricardo Voltolini.
Em Fortaleza para o lançamento do Núcleo ESG da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), nessa terça-feira (19), ele falou a empresários da indústria cearense sobre o conceito e avanço do ESG nos últimos 18 meses e mostrou elementos que contextualizaram os principais desafios para as empresas implementarem o ESG como forma de gestão integrada, entre os quais as ações voltadas aos direitos humanos, diversidade, saúde mental, investimento social privado em mudança de climáticas, gestão de liderança, entre outros. Ao O Otimista, Voltolini falou sobre a importância de as empresas considerarem os fatores do ESG e sua relevância como um novo modo de pensar e fazer negócio.
O Otimista – Qual é a relevância do Núcleo ESG-Fiec para o impulsionamento desse conceito na indústria cearense?
Ricardo Voltolini – O impacto que este novo conceito tem para a liderança nas empresas é muito grande. O conceito de ESG foi criado no mundo dos investidores em 2014 e veio ganhar tração e força no pós-pandemia ou durante a pandemia. É, na verdade, uma espécie de resposta no mercado a algumas fontes de pressão que ele vem sofrendo.
O Otimista – Que fontes de pressões são essas?
Ricardo Voltolini – A primeira fonte de impressão é a questão da ciência do clima. Estamos caminhando para uma situação muito complexa do ponto de vista de aumento da temperatura média do planeta. Cientistas já falam em passar do limite considerado inseguro de aumento, que é de 1,5 grau celsius em dez anos. Outro fator de pressão importante é o geracional. Os millennials, as pessoas dos 30 e 40 e poucos anos, já vêm com o chip geracional de que valoriza a questão do propósito, da diversidade, do meio ambiente, da ética, da transparência. Então são temas que vem na esteira desse conceito de ESG. Estamos falando de algo que aconteceu nos últimos 18 meses e que tem chacoalhado o mercado no mundo todo, inclusive para a indústria.
O Otimista – Como o senhor enxerga o Ceará nesse contexto?
Ricardo Voltolini – O Ceará se apresentou na última Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) como um produtor de hidrogênio verde, que é uma fonte de energia renovável e uma resposta importante para essa discussão de mudanças climáticas. Então, no Brasil, há muitas iniciativas que buscam desenvolver índices de sustentabilidade, atrair investimento internacional para energia eólica, solar, geotérmica e por aí vai. A gente está em um movimento interessante e, nacionalmente, o Ceará se destaca.
O Otimista – Pode-se dizer que, no atual momento, o ESG passa a ser um novo filtro para a avaliação das empresas?
Ricardo Voltolini – Sim, é uma maneira de avaliar também riscos e oportunidades para negócio. As informações chamadas não financeiras, antes, não tinham tanta importância para a gestão e estratégia de uma empresa, mas agora passam a ter. Isso provoca mudanças muito importantes no modo como as empresas vão pensar e fazer negócio. Houve uma evolução rápida desse conceito. Até dois anos atrás, estávamos falando em sustentabilidade empresarial e era um tema que não avançava tão rápido. Agora, com o ESG, essa discussão avançou 20 anos em 18 meses.
O Otimista – Quais são os desafios da indústria e das empresas em geral quanto à aplicação do ESG?
Ricardo Voltolini – Os principais desafios que vem com o ESG para a gestão é o que as grandes empresas estão fazendo hoje em diversidade, em saúde mental, direitos humanos, em investimento social privado, em mudança climática e em gestão e liderança. Os líderes empresariais do Ceará, por exemplo, devem fazer essa reflexão para que eles se conectem com os fatores do novo modo de pensar e fazer negócio.
O Otimista – Quais são as principais tendências das empresas na aplicação do ESG?
Ricardo Voltolini – São as tendências ambientais, sociais e de governança, não só no Brasil, mas no mundo. Um dos temas que a gente tem a questão é a diversidade e inclusão com uma ênfase com a questão de gênero e equidade racial. A gente tem a tensão de um novo nicho de colaboradores muito orientados pela ideia de saúde integral, com ênfase para a saúde mental. Outro tema importante é o respeito aos direitos humanos na cadeia de valor. É a não existência de denúncias de maus tratos, de trabalho escravo, de desperdício, além do investimento social nas comunidades em que essas empresas estão inseridas. Há uma tendência de que esse investimento venha a ser cada vez mais estratégico na solução da melhoria do índice de desenvolvimento humano das comunidades. Eu resumiria todos esses temas debaixo de um guarda-chuva chamado mudanças climáticas e descarbonização.
O Otimista – A descarbonização é um dos grandes desafios mundiais…
Ricardo Voltolini – O grande desafio do mundo hoje é o já colocado pela ONU (Organização das Nações Unidas), que é descarbonizar, ou seja, emitir cada vez menos gases do efeito estufa na atmosfera. Isso do ponto de vista prático para uma empresa significa que ela vai ter que fazer uma melhor gestão de água, de renda com preferência para renovarem uma melhor gestão do solo e da biodiversidade e uma melhor gestão de resíduos. Esses quatro grandes pontos definem quanto uma empresa emite carbono estufa nativa, e a tendência é que as empresas reduzam as perseguições porque carbono custará muito caro para elas. No Brasil, já tem pelo menos umas 80 ou 100 empresas de grande porte que anunciaram suas metas de neutralizar emissões de carbono até 2040. Nos próximos dois, três ou quatro anos, teremos um movimento muito importante, que é as empresas saindo de um estágio de gestão de projetos pontuais para colocarem a estratégia de negócio e, assim, mudarem a maneira de pensar e fazer negócio. Essa transição deve estar junto da gestão estratégica, e é uma discussão importante hoje no Brasil.
O Otimista – E quanto à participação dos conselhos de administração das empresas?
Ricardo Voltolini – Cada vez mais, os presidentes de empresas e os conselhos de administração, que antes não estavam tão envolvidos com a discussão da sustentabilidade, agora terão que se envolver. Já tem muita empresa no Brasil fazendo isso, mas vai crescer o número de empresas que adotam na remuneração dos seus executivos e colaboradores os padrões de ESG. Essas tendências é que vão fazer com que as empresas tenham que se mexer bastante nos próximos anos.
O Otimista – Ao que parece, o conceito de ESG deixa de ser algo pontual para realmente figurar como um posicionamento estratégico das empresas?
Ricardo Voltolini – Sem dúvida. A diferença básica fundamental é a mudança de lógica. Se antes a gente tinha sustentabilidade como tema de escolha e os líderes procrastinavam decisões, agora ele é mandatório para as empresas de capital que atuam sobre uma lógica do mercado e, principalmente, para as empresas com impactos ambientais.
O Otimista – A implantação do Núcleo ESG-Fiec é um recado para os empresários?
Ricardo Voltolini – Os recados estão sendo dados todos os dias e são os do mercado global.
O Otimista – O que falta ao poder público também tomar essa decisão de forma mais severa?
Ricardo Voltolini – É assumindo esses compromissos, cumprindo efetivamente.
O Otimista – No caso do Brasil, o senhor acha que o País tem condição de cumprir a agenda ESG na atual conjuntura política e econômica?
Ricardo Voltolini – Acho que, se o Brasil não fizer esse movimento, vai ficar de fora. Quando falamos de governo, é importante lembrar que temos governo federal, estaduais e municipais. A última Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26), no Reino Unido, nunca contou tanto com a presença de representantes de governos estaduais e municipais.
Fonte: O Otimista.